Resumo

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia de COVID-19. Desde então, as atenções da comunidade científica têm sido voltadas para estudos que viabilizem o esclarecimento da fisiopatologia, tratamento e reabilitação desta doença. Este cenário deve-se à capacidade da COVID-19 em causar doença aguda grave em uma importante proporção dos pacientes infectados, ocasionando, além dos prejuízos à integridade individual, uma importante sobrecarga dos sistemas de saúde. 1,2  

 

Segundo a OMS, estima-se que os sintomas da “COVID Longa” acometem cerca de 20% dos infectados. Estudos anteriores apontam que os sintomas mais comuns apresentados por pacientes infectados por COVID-19 incluem fadiga (58%), dor de cabeça (44%), distúrbio de atenção (27%), queda de cabelo (25%) e falta de ar (24%).3 

 

Nesse contexto, o projeto Pós-Covid Brasil tem o objetivo de avaliar os efeitos da COVID-19 em longo prazo sobre a saúde física, cognitiva e mental de casos moderados e graves (hospitalizados) e casos leves (ambulatoriais), bem como o risco atribuível da COVID-19 no acometimento da saúde cardiorrespiratória, possibilitando o correto direcionamento de políticas e esforços nacionais à prevenção e ao tratamento das sequelas e recuperação dos pacientes afetados pela doença causada pelo novo coronavírus.

 


Introdução

O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), em parceria com o Ministério da Saúde, vai estudar os efeitos dos sintomas prolongados e sequelas após a  COVID-19, que vem sendo chamada de COVID Longa, COVID Prolongada ou Long COVID. 

O projeto, denominado “PÓS-COVID-19 BRASIL”, que será conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento, pretende acompanhar prospectivamente pelo período de um ano a qualidade de vida e também outros desfechos de longo prazo, como retorno ao trabalho, saúde física, saúde mental e funções cognitivas em mais de 2 mil pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2. Deste total, serão acompanhados 1.000 pacientes que precisaram ser hospitalizados (casos moderados a graves) e 1.000 que não precisaram ser hospitalizados (casos leves). Além disso, o projeto contará com a execução de um estudo prospectivo para avaliar se a pneumonia causada pela COVID-19 pode causar mais sequelas que pneumonias causadas por outras etiologias. 

 

Justificativa e relevância do projeto para o SUS

Embora estejam disponíveis estudos observacionais avaliando o impacto agudo da COVID-19, dados sobre resultados de longo prazo são escassos, e constituem uma lacuna de evidência para a compreensão das necessidades dos sobreviventes de formas graves de COVID-19 4,5.  

 

Adicionalmente, um crescente número de estudos vem demonstrando a associação entre COVID-19 e sintomas prolongados mesmo em populações não graves,14 sugerindo que o risco de consequências em longo prazo pode ser independente da gravidade na fase aguda da COVID-19. Uma revisão sistemática recente descreveu mais de 50 sintomas possivelmente associados aos efeitos de longo prazo da COVID-19, destacando-se fadiga, fraqueza muscular, dispneia, cefaleia, dificuldade de concentração, dificuldade de memória, insônia, ansiedade, entre outros.15 

 

Diante do exposto acima, é provável que durante os próximos anos, devido às sequelas de COVID-19, seja crescente a demanda sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) por serviços de reabilitação física e mental. Nesta conjuntura iminente, é fundamental a realização de um estudo que descreva estas sequelas e suas consequências para a saúde e qualidade de vida da população sobrevivente da COVID-19 no Brasil, possibilitando assim o correto direcionamento de políticas e esforços nacionais à prevenção, ao tratamento e à recuperação dos pacientes afetados pela doença. 

 

Referências

  • Huang C, Wang Y, Li X, et al. Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China. Lancet 2020; 395:497;
  • Mahase E. Covid-19: most patients require mechanical ventilation in first 24 hours of critical care. BMJ 2020; 368:m1201;
  • Lopez-Leon S, Wegman-Ostrosky T, Perelman C, Sepulveda R, Rebolledo PA, Cuapio A, Villapol S.Sci Rep. 2021 Aug 9;11(1):16144. doi: 10.1038/s41598-021-95565-8.PMID: 34373540;
  • Zhou F, Yu T, Du R, et al. Clinical Course and Risk Factors for Mortality of Adult Inpatients With COVID-19 in Wuhan, China: A Retrospective Cohort Study. Lancet 2020;395(10229):1054-1062;
  • Richardson S, Hirsch JS, Narasimhan M, et al. Presenting Characteristics, Comorbidities, and Outcomes Among 5700 Patients Hospitalized With COVID-19 in the New York City Area. JAMA 2020;e206775;
  • 14. Huang C, Huang L, Wang y, et al. 6-month consequences of COVID-19 in patients discharged from hospital: a cohort study. Lancet  2021;397:220-32;
  • 15. Lopez-Leon S, Wegman-Ostrosky T, Perelman C, et al. More than 50 Long-term effects of COVID-19: a systematic review and meta-analysis. MedRxiv 2021;2021.01.27.21250617. 

  • Métodos

    O projeto Pós-Covid Brasil propõe-se a realização de 3 estudos observacionais: dois de coorte; e outro de delineamento híbrido com componentes de estudo de coorte e de estudo de caso-controle, , conforme descrito abaixo: 

  • Estudo 1 (coorte de casos moderados a graves): Estudo com 1.000 participantes sobreviventes de hospitalização por COVID-19, com seguimento de 1 ano para a avaliação da ocorrência e dos fatores de risco para prejuízo da qualidade de vida relacionada à saúde, mortalidade, re-hospitalizações, presença de sintomas prolongados, redução da capacidade física funcional, disfunção cognitiva e prejuízo da saúde mental. Os participantes serão recrutados a partir de 20 hospitais brasileiros localizados nas cinco regiões do país e serão acompanhados por meio de entrevistas estruturadas realizadas por telefone pela equipe de pesquisa do Hospital Moinhos de Vento;
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  • Estudo 2 (coorte de casos leves): Estudo com 1.000 participantes acometidos por COVID-19 que não necessitaram de hospitalização, com seguimento de 1 ano para a avaliação da ocorrência e dos fatores de risco para prejuízo da qualidade de vida relacionada à saúde, mortalidade, hospitalizações, presença de sintomas prolongados, redução da capacidade física funcional, disfunção cognitiva e prejuízo da saúde mental. Os participantes serão recrutados a partir de 20 serviços de emergência/pronto atendimento brasileiros localizados nas cinco regiões do país e serão acompanhados por meio de entrevistas estruturadas realizadas por telefone pela equipe de pesquisa do Hospital Moinhos de Vento;  
  • Estudo 3 (caso-controle): Estudo de delineamento híbrido com componentes de estudo de coorte e de estudo de caso-controle.  com  318 participantes (106 casos de pacientes hospitalizados por pneumonia com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) por SARS-CoV-2; 106 controles acometidos por pneumonia com SDRA causada por outras etiologias que não SARS-CoV-2e; e 106 controles sem histórico de COVID-19 ou hospitalização por doença clínica) para avaliação do risco atribuível da COVID-19 no acometimento da saúde cardiorrespiratória após 6 meses do evento ocorrido (capacidade de difusão pulmonar, variáveis espirométricas e ergoespirométricas, padrões radiológicos de fibrose pulmonar, sequelas de miocardite aguda e sarcopenia, dispneia, eventos cardiovasculares e tromboembólicos, mortalidade e fatores de qualidade de vida relacionada à saúde.. Casos e controles serão pareados por idade e comorbidades. Os casos de pneumonia por SARS-CoV-2 e os controles acometidos por pneumonia por outras etiologias serão recrutados a partir de 4 hospitais localizados na região metropolitana de Porto Alegre. Os participantes serão acompanhados por meio de entrevistas realizadas por telefone pela equipe de pesquisa e ainda realizarão exames presenciais no Hospital Moinhos de Vento. 
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    A publicação dos resultados dos estudos acima acontecerá até 30/12/2023.  

     



    Equipe

    • Hospital Moinhos de Vento

      Liderança

      Geraldine Trott - Hospital Moinhos de Vento, Porto Alegre


      Equipe

      Colaboração

      Área Técnica

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