Resumo

As doenças cardiovasculares são consideradas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a principal causa de morte no mundo, sendo que mais pessoas morrem por estas condições do que por qualquer outra. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 300 mil indivíduos por ano sofrem infarto agudo do miocárdio (popularmente conhecido como ataque cardíaco), ocorrendo óbito em 30% desses casos. A estimativa é que o país registre um aumento de até 250% de casos até 2040.

Os fatores de risco variam desde fumo, diabetes, hipertensão e obesidade, até poluição do ar e condições raras e negligenciadas, como Doença de Chagas e amiloidose cardíaca. No entanto, as doenças cardiovasculares também podem ser hereditárias, como síndromes arrítmicas, miocardiopatias, arteriopatias, distrofias musculares e a hipercolesterolemia familiar.

A partir do Projeto Genoma Humano (PGH), dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH), foi possível observar maior entendimento da predisposição genética nas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que incluem as cardiovasculares. Com isso, é possível identificar dentre estes pacientes aqueles que possuem alterações genéticas que os predispõem às doenças, o que permite a adoção de estratégias de prevenção primária, reduzindo a exposição aos fatores de risco, e de prevenção secundária, com o diagnóstico das doenças.

No Brasil, a publicação do Projeto Genomas Brasil, do Governo Federal, com o mapeamento genômico dos brasileiros, proporciona uma oportunidade para o reconhecimento dos fatores genéticos no desenvolvimento das DCNT. Além disso, a união entre as informações do genoma com as informações clínicas, de história familiar e moleculares contribui para o estabelecimento da Saúde de Precisão, que é definida como “conjunto de técnicas que utilizam informações clínicas e biológicas do indivíduo ou de subgrupos da população para personalizar o cuidado em saúde”.

A coleta de dados genômicos e clínicos possibilitará o desenvolvimento de melhores estruturas de atenção personalizada, uma vez que poderão sustentar pesquisas a longo prazo, em concomitância com o desenvolvimento tecnológico, que auxiliarão na descoberta de novas formas de tratamentos e seguimentos clínicos. Nesse sentido, as mudanças acarretarão a possibilidade de incorporar no Sistema Único de Saúde (SUS) a prática de Medicina Genômica e de Precisão de forma simples e objetiva.

 


Introdução

Com base neste contexto, o estudo CV-Genes mostrará a correlação entre a doença cardiovascular aterosclerótica (quando ocorre formação de placas de gordura, cálcio e outros elementos na parede das artérias do coração) e diversos fatores tradicionais, como hipertensão arterial, obesidade abdominal, diabetes, envelhecimento, tabagismo, sedentarismo, entre outros. Essas informações em conjunto com os dados genômicos serão utilizadas para construir um perfil genético diversificado, que reproduza a heterogeneidade da população brasileira.

Com isso, será possível derivar o escore de risco poligênico (do inglês, polygenic risk score - PRS) da população do Brasil, algo inédito no país, já que escores desse tipo estão disponíveis apenas para norte-americanos, europeus ou asiáticos. O PRS agrega os efeitos de variantes genéticas em um único número, que prevê a predisposição genética para um fenótipo. Os PRS são tipicamente compostos de centenas a milhões de variantes genéticas (geralmente SNPs). Para cada indivíduo, o número de alelos de risco computados em cada variante é somado e pesado pelo valor estimado dos efeitos obtidos de estudos genômicos em larga escala. 

Dessa forma, o CV-Genes irá fornecer embasamento para a prática da Medicina de Precisão, que se respalda na variabilidade genética, na exposição a fatores ambientais e no estilo de vida de cada pessoa. Uma das vantagens da utilização do PRS é possibilitar maior acurácia nas medidas de prevenção e tratamento, tornando-as mais seguras e eficazes.

As informações são importantes para que as autoridades de saúde possam tomar decisões sobre predição, prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares também em termos de Saúde Populacional. Conforme os dados tenham sido coletados e analisados, os profissionais envolvidos poderão elaborar intervenções direcionadas ao diagnóstico e tratamento precoce das condições associadas às doenças cardiovasculares, na expectativa de que as mortes acarretadas por essa enfermidade sejam reduzidas.

O projeto vai contribuir com o Programa Genomas Brasil, lançado em 2020 pelo Governo Federal com o objetivo de incentivar o desenvolvimento científico e tecnológico nas áreas de genômica e saúde de precisão no âmbito do SUS. Este projeto tem como objetivo principal a avaliação da informação genômica previamente associada às doenças cardiovasculares (DCV) e sua importância como preditor de risco independente (expresso em Odds Ratio) e em conjunto com fatores de risco tradicionais (tabagismo, diabetes, hipertensão arterial, obesidade, ansiedade e depressão, dieta inadequada, sedentarismo, etilismo e relação apolipoproteína B/A1.

 


Métodos

O CV-Genes pretende abordar 1.867 pessoas que já têm a doença (casos) e 1.867 pessoas que não têm (controles), com 18 anos ou mais. A ação será realizada nas cinco regiões brasileiras e ocorrerá em até 50 centros de referência da área de Cardiologia. Os participantes passarão por avaliação clínica, entrevista por meio de questionário direcionado, bem como coletas de sangue e urina que serão utilizadas para análise bioquímica e genética. A análise de variantes e o resultado de testes genéticos serão realizados pelo Grupo Fleury por meio desta parceria. O prazo de conclusão do projeto é dezembro de 2023.

A coleta de dados será realizada em cada centro de maneira consecutiva, para casos e dos controles, por meio de formulário de coleta de dados eletrônico (e-CRF). Os casos (N = 1867) serão selecionados pela ocorrência do primeiro evento cardiovascular aterosclerótico (Infarto Agudo do Miocárdio, Acidente Vascular Encefálico e Eventos Trombótico-Isquêmicos Arteriais Periféricos) durante a fase de hospitalização para manejo do evento aterotrombótico agudo.

Os controles (N = 1867) serão indivíduos que procuraram atendimento médico nos mesmos locais por outras questões clínicas (sem DCV) ou indivíduos sem qualquer doença manifesta. Casos e controles passarão por sequenciamento genético (WGS low pass acoplado a exoma), sendo o Score de Risco poligênico (polygenic Risk Score - PRS), ajustado pelas demais variáveis, o desfecho principal do estudo.

Etapas do projeto:

  • Realizar genotipagem de pacientes com e sem doença cardiovascular manifesta, analisando polimorfismos associados às doenças cardiovasculares;
  • Avaliar o impacto de polimorfismos genéticos como fator de risco não modificável para doença cardiovascular aterosclerótica;
  • Avaliar a correlação entre os achados genéticos e fatores fenotípicos e comportamentais (Fenotípicos: (hipertensão arterial, dislipidemia, obesidade abdominal, diabetes, envelhecimento populacional e fatores bioquímicos como relação apolipoproteína B/A1, entre outros). Comportamentais: baixa escolaridade, tabagismo, falta de atividade física regular/sedentarismo, alterações psicossociais, poluição do ar, dieta inadequada, ansiedade e depressão, etilismo) na ocorrência de DCV aterosclerótica;
  • Analisar e discutir o perfil genômico associado à ocorrência de DCV aterosclerótica da população brasileira com aquele de outras populações descrito em outros estudos já publicados.


  • Equipe

    • Hospital Alemão Oswaldo Cruz

      Liderança

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      Equipe

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      Colaboração

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      Área Técnica

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